10 dn. temu
Ontem sai do trabalho as cinco e meia e em vez de ir para casa meti-me na A28 para norte. Para o fim de semana anunciam chuva e eu queria aproveitar a ultima tarde seca da semana. A autoestrada nao tem nada para contar, mas o mar vai sempre ali a esquerda por entre os pinheiros e a luz ja estava a ficar baixa e amarela.
Sai antes de Viana e entrei pela ponte velha, a do Eiffel, com as juntas de ferro a bater por baixo das rodas e o Lima largo e calmo dos dois lados. Do outro lado da cidade comeca a subida para Santa Luzia, calcada em curvas apertadas, daquelas em que a Scrambler vai em segunda e eu vou com os olhos na pedra. A meio cruzei o funicular a descer quase vazio.
La em cima estava pouca gente. Um casal estrangeiro a tirar fotografias, um senhor com um cao e eu. Encostei a moto junto ao muro e sentei-me ao lado dela. Dali ve-se tudo de uma vez: a cidade la em baixo, as pontes, o rio a abrir para o mar e a praia do Cabedelo do outro lado, ja sem ninguem.
O sol desceu para o mar pouco depois das sete. Durante uns minutos o rio ficou da cor do cobre e as janelas da cidade a brilhar como se alguem as tivesse acendido todas ao mesmo tempo. Depois apagou-se tudo devagar e comecaram a acender as luzes a serio, primeiro na marginal e depois nas casas da encosta.
Desci ja de noite, devagar, porque a calcada com a humidade da noite nao perdoa. Ao fundo da subida estava um homem com um carrinho de castanhas, as primeiras que vi este ano. Comprei uma duzia e comi-as encostado a moto, a queimar os dedos, com o fumo a subir para a luz do candeeiro.
Para voltar fui pela N13, pela costa, por Esposende e pela Povoa. E mais lenta e tem rotundas a mais, mas a esta hora estava vazia e cheirava a mar e a lenha. Cheguei a casa perto das dez, com o cheiro das castanhas ainda no casaco. Uma quinta-feira normal, so que nao.