prieš 16 d.
Domingo sai do Porto ainda de noite, pouco depois das cinco. Meti a A4 ate a Regua so para despachar o caminho aborrecido, e ainda estava tudo fechado quando encostei na ponte para tirar o capacete e olhar o rio la em baixo, cinzento e parado como se ainda nao tivesse acordado.
A partir dali comeca a N222. Ja a fiz meia duzia de vezes e continuo a nao me fartar. A estrada anda colada ao Douro, sobe um pouco, volta a descer, e a cada curva as vinhas mudam de tom conforme o sol vai chegando as encostas. Aquela hora de domingo nao ha ninguem, so um ou outro carro de quem vai trabalhar nas quintas e um trator que me deixou passar com um aceno.
A Scrambler gosta daquele ritmo. Nao e uma estrada para andar depressa, as curvas sao cegas e ha sempre gravilha a sair dos caminhos de terra. Vai-se em terceira, com o motor a puxar de baixo, e o som volta das paredes de xisto do outro lado do vale.
Parei antes do Pinhao, num miradouro onde cabem dois carros e mais nada. O nevoeiro estava a levantar do rio em bandas finas e do outro lado ja se via o sol a bater nas vinhas mais altas. Fiquei sentado no muro talvez vinte minutos sem fazer nada, so a ouvir o motor a arrefecer e um cao a ladrar muito ao longe.
No Pinhao tomei cafe na estacao, aquela dos azulejos. A senhora ja me conhece de vista e nem pergunta, aponta so para a maquina. Voltei pelo mesmo caminho com o sol ja alto e o rio outra vez com outra cor.
Cheguei a casa antes do almoco, com po nas botas e a sensacao de ter feito o dia render. Ha domingos que se gastam sem dar por eles. Este nao.
Essa estrada do Douro nao tem nada a ver com o que temos aqui em baixo. No Algarve e sempre a mesma luz e a mesma reta ate ao mar, ai e curva atras de curva com o rio sempre ao lado. Fiz a N222 uma vez ha uns anos e ainda me lembro do cheiro das vinhas depois da chuva.
Depois da chuva e mesmo outra coisa, o cheiro fica na estrada toda ate ao Pinhao.